Vitamina
musical
O LUGAR CERTO PRA SINTONIZAR
Música melhora o desempenho escolar dos alunos
Laura Justino 29/11/18

ONG Oela promove recitais musicais para manter seu projeto, em Manaus. (Foto: Vinicius Leal)



A aprendizagem da música faz bem em todos os sentidos: aumenta a sensibilidade dos sentidos do corpo humano, desenvolve aspectos culturais e incentiva a descoberta de outras linguagens. O contato com diferentes tipos de músicas implica na capacidade de diferenciar gêneros. Desde 2008 o Brasil tem uma lei que aplica a musicalização nas escolas.
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A Música no ambiente escolar contribui para o aprendizado do aluno. Contudo, não há aulas de musicalização na maioria das escolas públicas e essas se sentem inseguras ao unir a esfera musical à escolar.
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Segundo o filósofo Friedrich Nietzsche, ‘’Sem a música, a vida seria um erro’’. Portanto, deve-se aproveitar os recursos que este meio nos proporciona. A educação, seja para crianças, jovens ou adultos se torna dinâmica com o contato musical, como o uso de paródias.
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Nas aulas de matemática da professora Nathália Rios, por exemplo, troca-se um verso da famosa composição de Tonico e Tinoco ‘’ Moreninha linda do meu bem querer, é triste a saudade longe de você’’ para: ‘’ moreninha linda do meu bem querer, delta é b ao quadrado menos 4 a c’’. Em consequência disso, seus alunos têm maior facilidade em decorar as fórmulas .
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‘’ Tem um monte de fórmula do mundo da matemática, sem falar nas fórmulas de física e de outras matérias que eles têm de ser aprovados. Por isso ensino essa paródia e outras que sei, para que, através de assimilações com a letra original eles lembrem das fórmulas que vão levar para o resto da vida escolar e acadêmica’’- explica a professora.
E funciona mesmo. Segundo o discente de Nathália, Antônio Felipe Silva, as paródias ensinadas por ela fizeram as fórmulas serem inesquecíveis. Ele estudou no oitavo ano com ela, em 2007. Onze anos depois, ainda lembra como se fosse 2018. De acordo com Silva:
‘’ Estudei com Nathália em 2007, mas ainda consigo lembrar exatamente das fórmulas. Eu podia não gostar das músicas das quais ela pegava para produzir as paródias, mas aquilo ficava na mente. Naquele ano, cantei até no chuveiro que delta é b ao quadrado menos quatro a c – risos-. Brincadeiras à parte, ajudou mesmo a lembrar umas daquelas tantas fórmulas que precisava de aprender.
Na mesma escola, em 2010, eu estava no primeiro ano do ensino médio e aprendi com o professor de sociologia que, ao invés de atirei o pau no gato-to, mas o gato-to, não morreu-reu-reu, dona Chica-cá admirou-se,-se do berro, do berro que o gato deu. Miau! É só cantar, no mesmo ritmo do famoso atirei o pau no gato: para saber o que é fato-to social- al-al, é só lembrar-ar-ar das suas três-três-três características, ele é geral, exterior e coercitivo. Durkheim!
Não esqueci das músicas até hoje e pretendo passar para meus futuros filhos para que eles tenham facilidade também. Na minha opinião, fazer essas relações ajuda a aprender de forma que não se esquece ao passar do tempo.’’ - explica o ex-aluno
Em contrapartida disso, a tradicional forma de ensino nas escolas persiste e ocasiona no obstáculo da demora do aluno em aprender e fixar as ideias na memória. O uso da música traz soluções para esse algoritmo, pois ela ajuda a entender e memorizar a matéria teórica, além de trazer possibilidades interdisciplinares, ou seja, é possível fazer paródias com diversos estilos músicas, sobre qualquer disciplina.
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De acordo com o professor e escritor Marcos Antônio Correia, em seu livro ‘’Música na Educação: uma possibilidade pedagógica’’, os discentes gozam da possibilidade de entenderem o contexto social e político do passado a partir da letra de uma música criada ou pensada nele: ‘’A música auxilia na aprendizagem de várias matérias. Ela é componente histórico de qualquer época, portanto oferece condição de estudos na identificação de questões, comportamentos, fatos e contextos de determinada fase da história’’. Pode ser citado como exemplo Sunday Bloody Sunday, do grupo irlandês U2, cujo tema é o massacre de manifestantes russos, o qual ficou conhecido como Domingo Sangrento, em 1905.
Além de entender o conteúdo teórico, a partir da música o discente tem contato com princípios de socialização ao debater suas letras ou cantá-las com a turma. Entretanto, a matéria musicalização está em falta nas escolas e sua ausência implica na falta de contato com este recurso e desencoraja os professores a trabalharem com o meio por se sentirem desqualificados.
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Para resolver o problema, o Ministério da Educação criou a lei nº 11.769, em 2008, publicada no Diário Oficial, a fim de unir música ao aprendizado, tanto nos colégios públicos como privados, a partir das aulas de musicalização. Porém, por falta de verbas que deveriam ser disponibilizadas por essa instituição ao ambiente escolar (para os instrumentos, contratação de professores, a compra do material didático e a construção de uma sala própria para o estudo), até hoje há a disciplina em poucas escolas pelo Brasil.
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Destarte, o projeto Brasil de Tuhu, criado em 2009, foca em ampliar e fortalecer o ensino musical nas escolas brasileiras, a partir da inspiração no maestro Heitor Villa-Lobos. Enquanto criança, Villa-Lobos era apaixonado por locomotivas e imitava o barulho delas ‘’Tuhuuu’’. Por consequência, o nome do projeto.
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Este propósito contribui não só para a inclusão dos estudantes, mas também para quem os ensina, mesmo que este último não tenha conhecimento sobre o mundo musical. Chamada Vivências Musicais, a iniciativa envolve oficinas de capacitação para interessados a agregar o currículo e oferecer melhor educação às crianças a partir dos benefícios associados a práticas musicais, como fomentar a imaginação, o desenvolvimento cerebral e propensão social.
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As oficinas são realizadas em dois dias consecutivos. Neste ano (2018), serão aplicadas em seis estados do Brasil: São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pará, Pernambuco e Bahia. Sendo Pará a apresentar maior carência e a necessitar maior atenção do Brasil de Tuhu, segundo mapeamento feito pelo projeto. De acordo com ele, os objetivos englobam, em específico: a Educação senso-perceptiva, coordenação psicomotora, educação espaço-temporal, criatividade musical, o estudo do esquema corporal, desenvolvimento do senso de estética, estímulos para que a criança aprecie a música e se expresse por meio dela, desenvolvimento integral da criança, desenvolvimento do ritmo, do ouvido musical e da voz, estímulo à criatividade por meio da improvisação musical e desenvolvimento da sensibilidade musical.
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Para somar à Vivências Musicais, há o Guia Musical, cuja proposta é aproximar crianças e jovens do universo da música erudita e estimular a educação musical, com base no guia prático do maestro Villa Lobos, o qual oferece suporte aos educadores, com ferramentas práticas e didáticas.
Desenvolvido em 2016, o Guia Musical sustenta:
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Brasil de Tuhu acredita que a criança com música será uma criança melhor. ( canal: Brasil de Tuhu
‘’Na nossa Guia Didática I o educador encontrará jogos e brincadeiras de fácil realização em sala de aula. O professor é livre para adaptar todos os exercícios propostos para sua área de ensino. Tendo sempre em mente que o aluno é o foco das atividades. Os estimule, os incentive a criar, molde as brincadeiras… A proposta da Guia Didática do Brasil de Tuhu é desencadear experiências importantes para a formação completa da criança. Estimulando a troca entre aluno e professor através dessa expressão artística tão envolvente que é a música.
O segundo volume da nossa Guia Didática, produzido em 2017, vai mais a fundo nos assuntos abordados em seu volume anterior. Nesta edição, os alunos irão aprender como o Ritmo, a Melodia e a Harmonia se articulam na música. Também iremos propor novas atividades onde utilizarão de materiais do cotidiano e de fácil acesso para criar instrumentos. Tornando o aprendizado mais divertido e dinâmico. Ao final da Guia Didática II, o educador também encontrará formas de utilizar as canções disponíveis no próprio CD do Brasil de Tuhu Vol. 1 com brincadeiras para desenvolver a percepção musical de seus alunos.’’ - descreve Brasil de Tuhu.
UMA QUESTÃO HISTÓRICA
Heitor Villa-Lobos deixa o legado de inspiração. Além do Brasil de Tuhu, Getúlio Vargas expressava notável valorização à Villa-Lobos. Ao sentir a necessidade de melhorias na educação, o Chefe do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil assinou o decreto nº 18.890, em 18 de abril de 1932, o qual implica na obrigatoriedade do canto orfeônico nas escolas públicas, o mesmo canto utilizado como exaltação à pátria pelo maestro. Afinal, também era estratégia política, pois proporcionou a divulgação de seu governo: havia a construção de uma imagem de um povo disciplinado a partir dos cantos em eventos públicos de hinos que exaltavam a beleza do país.
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Contudo, a outra cara da música era se contrapunha ao regime da época. A canção O bêbado e o Equilibrista, por exemplo, gravada por Elis Regina, em 1979, composta por Aldir Blanc e João Bosco, em 1975, representa o desejo da população por anistia, na época. Ou seja, a melodia apoiava o movimento que reverteu punições aos cidadãos que foram taxados como criminosos políticos no tempo da ditadura.
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Outro exemplo memorável é Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores, de Geraldo André, em 1967. A canção encorajava o povo a reagir contra as ações dos militares. Ela foi censurada, mas até os jovens, hoje em dia, já ouviram o famoso trecho: '' Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer''.
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Contudo, o governo de Vargas entra em declínio e há uma enfraquecida no canto orfeônico, o qual não possuía mais a mesma importância de um potencial formador de concepções. O país se democratizava. Então, era fundamental elidir tudo que lembrara o autoritarismo. Já em 2008, o ex-presidente Lula sancionou a lei Nº 11.769, em 2008, a qual obriga o ensino de música da educação básica. Nessa lei, musicalização não precisa ser, de forma necessária, uma disciplina. Contudo, há de se incrementar sua linguagem conforme as propostas pedagógicas das escolas.
Curiosidade: o termo ''música'' tem origem grega, onde é Mousikê e significa a "A Arte das Musas". Platão acreditava que a música tinha poder influenciador sobre o homem, portanto, deveria estar sob controle do órgão responsável por garantir o bem social: o Estado. Pitágoras, filósofo antigo cujo pensamento girava em torno da matemática, estabeleceu razões e proporções numéricas para cada compasso e intervalo musical. Muito antes dessa época, ao considerar a inteligência musical como fator primordial de intelecto, o antigo Deus Apolo era o mais sábio. A música estava presente durante toda a vida do homem grego.
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Dificuldades
De acordo com a lei, musicalização não há de ser uma disciplina exclusiva. Portanto, ao levar em consideração a precariedade de recursos disponíveis para o seu ensino, a escola se vê na necessidade de desenvolver a linguagem de música na matéria de artes. Luis Ricardo Silva Queiroz, presidente da Associação Brasileira de Ensino Musical em 2016, se opõe:
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“O formato de uma disciplina de artes que abarque tudo não dá certo, pois é impossível um professor ser formado em todas estas áreas. São diferentes formas de expressões, como artes plásticas, teatro, dança e música. Não se forma profissionais para trabalhar dessa maneira”
Nesse sentido, artes e músicas englobam duas esferas que, mesmo com semelhanças, precisam ser estudadas em suas especificidades para que possam atingir seus propósitos. “A riqueza cultural do Brasil pode ser levada à escola. As práticas de cultura popular podem ser canalizadas na formação musical”, complementa Queiroz.
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A falta de um espaço destinado, de verba para a compra de instrumentos e para a contratação e capacitação de educadores, a insuficiência de horários disponíveis pelos alunos para o ensino no contra turno e a ausência de apostilas dificultam a consolidação da musicalização. Luciana Regina de França Leite, professora da rede pública, indica:
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Crescimento Social
Dentre os benefícios do estudo da música, está a inserção e participação da criança em um meio social. Cada pessoa traz consigo suas prenoções e a cultura do ambiente em que vive. Assim, a educação musical pode afastar, pelo menos em primeiro instante, de seu berço o aluno, o qual pode se desinteressar pelo assunto, visto que não se encontra semelhanças com a realidade.
Portanto, na escola, há a troca de conhecimentos por toda a classe. Um aluno mostra determinado gênero musical para o outro, o qual pode desconhecê-lo e retribuir ao mostrar, ainda, estilos diferentes. Nesse caro, a tarefa do professor é contribuir para o estímulo da descoberta.
Ademais, é comum, na educação básica, a música ter poder formador ao auxiliar a criança a amadurecer ideias de comportamento social. No livro Quem Educa Quem?( página 59), lançado em 1985, de Fanny Abramovich explica:
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“A música pode ser ensinada nas escolas, de várias maneiras. Como projeto de canto coral, de instrumentos e bandas. Ela pode ser utilizada como ferramenta pedagógica, trazendo show de talentos ou apresentações musicais para os alunos assistirem, seja de instrumentistas ou cantores’’
''Ò ciranda –cirandinha, vamos todos cirandar, uma volta, meia volta, volta e meia vamos dar, quem não se lembra de quando era pequenino, de ter dados as mãos pra muitas outras crianças, ter formado uma imensa roda e ter brincado, cantado e dançado por horas? Quem pode esquecer a hora do recreio na escola, do chamado da turma da rua ou do prédio, pra cantarolar a Teresinha de Jesus, aquela que de uma queda foi ao chão e que acudiram três cavalheiros, todos eles com chapéu na mão? E a briga pra saber quem seria o pai, o irmão e o terceiro, aquele pra quem a disputada e amada Teresinha daria, afinal, a sua mão? E aquela emoção gostosa, aquele arrepio que dava em todos, quando no centro da roda, a menina cantava:sozinha eu não fico, nem hei de ficar, porque quero o ...(Sérgio? Paulo? Fernando? Alfredo?) para ser meu par. E aí, apontando o eleito, ele vinha ao meio pra dançar junto com aquela que o havia escolhido... Quanta declaração de amor, quanto ciúminho, quanta inveja, passava na cabeça de todos. ''
Os benefícios
Desenvolvimento dos sentidos: diferentes instrumentos aumentam habilidades de observação, compreensão, concentração e percepção ao ler a partitura ou cifra e tocar ao mesmo tempo.
Interpretação de músicas: associar as letras das músicas com a realidade, em português ou outro idioma, faz com que os alunos entendam o contexto atual ou saibam de algum acontecimento histórico. Também, aprendem um vocabulário, além de assimilar novas metáforas e conceitos. A interpretação de cifras e partituras permite que eles entrem em um mundo constituído por uma linguagem de notas musicais. Essas duas estimulam o raciocínio lógico, pois para entende-las, é preciso conhecimento de sua teoria, a qual envolve repetição, tríades, escalas, coerências, compassos, ritmos e adequação de tom. A familiaridade com isso ajuda da solução de outras questões lógicas. A isso se soma o conhecimento de renomados músicos e composições clássicas.
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Criatividade: todos os benefícios se voltam para que os alunos tenham maior autonomia de si, sejam mais sociáveis ao respeitar e trocar informações musicais, além do desenvolvimento de sentidos e percepções por eles.
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Ao ter isso em vista, conclui-se a importância do contato dos petizes com o mundo musical para que eles tenham maior concentração, consigam memorizar os conteúdos didáticos, tenham relações sociais mais amplas e aprendam conteúdos considerados difíceis de uma maneira dinâmica e divertida. Afinal, como já apontou Friedrich Nietzsche, Sem a música, a vida seria um erro.