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Tá tudo dominado!

Por: Beatriz Evaristo    27/11/2018

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Foto retirada da integra 

O funk se originou nos Estados Unidos, com a mistura de outros estilos musicais. Quando veio para o Brasil o funk era predominantemente das favelas e periferias, hoje ele atinge diversas camadas sociais e está presente na maioria das festas populares.

As primeiras caras do funk no Brasil foi: Gerson King Combo, Tim Maia, Carlos Dafé e Tony Tornado, trazendo não apenas o funk, mas também o movimento Black Power. 

Na década de 70 surgiu algumas equipes de som, uma delas é o Furacão 2000, que ainda tem grande influência no funk atual. A equipe é uma produtora e gravadora carioca, teve grande importância para o funk carioca, realizando diversos shows, foi assim que acabou popularizando o gênero no país.

Vários cantores desse estilo mudaram de vida devido ao sucesso que fizeram com seus hits e clipes. O funk é acessível para qualquer pessoa que queira se expressar ou apenas mostrar o seu dom, transformando vidas. Diversos Mc’s foram consagrados historicamente pelo seu sucesso, músicas que marcaram décadas. Cada vez mais o funk vai se reinventando, mudando de estilo conforme a necessidade da sociedade, mas nunca perdeu sua essência.

No Brasil, o funk se transformou em um estilo musical que faz milhares de pessoas dançarem. Mesmo que não se considere uma pessoa que goste desse estilo musical, a todo momento se depara ouvindo, dançando ou até mesmo cantando alguns trechos do funk. Ele é assim: se espalha, contagia e multiplica-se cada vez mais.

 

O funk: Popular e perseguido

 

Nos anos 90, as letras do funk falavam das dificuldades enfrentadas nas comunidades, sobre a descriminalização dos moradores da favela, logo o funk se tornou uma forma de manifestação cultural. Dessa forma, aos olhos da classe média/alta da sociedade a cultura do funk é algo marginalizado, responsável por um declínio moral e cultural do Brasil, já que os mesmos não presenciavam essa outra realidade.

Segundo MC Julian, cantor de funk nas noites em São Paulo, o preconceito ainda está presente a cerca do funk, “Já sofri muito preconceito por cantar funk. Uma vez, quando eu fazia um curso técnico, as pessoas que estudavam comigo descobriram que eu sou MC e ficavam comentando entre elas “Nossa como assim um MC estudando”, até que isso chegou em mim. Ou seja, por eu ser MC eu não tenho qualificação para estudar, que por eu ser um MC eu tenho uma qualificação menor para estar ali. Entende a problemática do assunto?”

Atualmente, com as diversas facetas que rodeiam o funk, o estilo musical se tornou algo polemizado. A propagação dos bailes funks por todos os estados, em especial Rio de Janeiro e São Paulo, incomoda moradores, os sons altos até tarde da noite, tumulto de pessoas e até mesmo drogas rolando soltas, mancham a história do funk. Outro problema apontado por Paulo Marinho é a falta de conteúdo nas letras, “Hoje em dia o funk não tem mais aquele conteúdo como quando era na época do Claudinho e Buchecha, as músicas são feitas apenas para dançar e lançar carreira do MC”.

Esse assunto é muito polemizado no mundo de hoje, mas o principal problema não é nem o funk em questão, muitas pessoas que não gosta do funk, geralmente, não sabem da história que o gênero tem. O que suja a imagem do funk não é o próprio estilo musical e sim as coisas que estão ligadas a ele. Esses estilos mais “pesadas” existem porque tem um público que os consomem, a música nada mais é que um produto no mercado de trabalho que tenta agradar todos os gostos.

 

Os diferentes funks

 

O funk se modificou, teve diversas especialidades, formas de cantar e até mesmo ritmos diferentes. No ano de 1995, Claudinho e Buchecha iniciavam carreira, trazendo o movimento do funk melody, com as músicas “Quero te encontrar”, “Só love”, “Nosso sonho” e “Xereta”.  Com a chegada dos anos 2000, veio o Bonde do Tigrão, trazendo o New funk, o funk carioca, e suas músicas que fazem sucesso até hoje “Cerol na mão” e “Thuthuca”.

Pulando para o ano de 2010, o ano que o funk ostentação surgiu com grande peso no estado de São Paulo. As músicas eram baseadas em letras que fazem alusões a marcas de carros, roupas e envolvia muito dinheiro. O cantor que melhor representa esse estilo é o MC Guimê, com a música “Plaquê de 100” que viralizou na internet. O diretor do documentário “Funk Ostentação”, Renato Barreiros, diz que essa vertente foi um reflexo da economia brasileira, o maior poder de consumo que ocorreu no segundo governo de Lula. “Foi uma época de prosperidade econômica e em São Paulo as marcas sempre tiveram um status importante”, disse o diretor em entrevista.

Em 2014, após o funk ostentação começar a entrar em declínio, foi substituído por outros dois subgéneros, tais como o funk chavoso e o funk ousadia.

O funk chavoso surgiu a partir de uma expressão usada para se referir a pessoas que tem propensão a causar problemas, “chave de cadeia”. Era assim que os meninos da periferia titulavam aqueles garotos que eram mais descolados do bairro, se transformando em uma gíria.

Essa ramificação do funk, não consiste só nas novas gírias que surgiram, nem nas novas letras para as músicas, consiste também na maneira de se vestir. Ronaldo Dias Viana, o MC Naldinho, diz em entrevista que é fácil identificar um “chavoso”, “Usamos bermudas de marcas como Quicksilver e óculos da Oakley ou Evoke. O boné não pode ser da New Era, de aba reta, que é de swag. Mas o principal elemento é o ténis com meia na canela”.

Já no funk ousadia, o tema das músicas é outro, completamente diferente. Esse subgénero surgiu por volta de 2013, com líricas mais sensuais, com um conteúdo mais picante, no qual fala de amor e sexo. O cantor que é representante desse estilo é o Mr. Catra, embora a maioria de seus funks ousadia foram lançados no começo de sua carreira (antes desse subgénero vir à tona), Mr. Catra sempre cantou músicas com um teor mais quente e de conteúdo adulto, tornando-se referência não só para funk, mas também para hip-hop e o rap. Após sua morte, milhares de cantores, até mesmo dos outros estilos músicos, o homenagearam, relembrando seus sucessos e deixando mensagens emocionantes em redes sociais e aos familiares. s

Atualmente, os sucessos que estão explodindo nessa vertente são dos cantores Mc Livinho e Mc Lan, que falam, explicitamente, na maioria das vezes, sobre sexo. É aí que nasce outra problemática do funk. Músicas com o conteúdo explicito, causa estranhamento, aversão e até raiva, mas o principal problema a cerca disso tudo, é o papel da mulher. Muitas canções falam da maneira como tratam uma mulher nos bailes funks, o quão ela é vista com um objeto sexual do homem e até mesmo fazendo apologia a cultura do estupro.

Em janeiro desse ano, o Mc Diguinho lançou uma música que repercutiu nas redes sociais, “Só surubinha de leve” é uma música que já coleciona mais de 15 milhões de visualizações no YouTube. A letra parece retratar uma situação onde o homem alcooliza uma mulher, tem relações sexuais com ela e depois “abandona” na rua. Várias formas de protesto ocorram, como exemplo, uma dupla de meninas, com um canal no YouTube de covers, fez uma versão dessa música modificando a letra, “Abusar a mulher é crime, estupro é violência, tira as mãos de cima dela e coloca na consciência”. Outra medida que tomaram, foi pedirem para que o Spotify retirasse a música das playlists criadas no aplicativo. O aplicativo de streaming aceitou os pedidos, enviados até pelo Twitter, e removeu a música e todos os remix dela.

 
A internacionalização do funk

 

O funk cada vez mais conquista seu espaço na sociedade, através de meios diferentes, atinge cada região do Brasil. E agora, mais do que nunca, o funk está conquistando seu espaço também no mundo todo.

Os principais responsáveis por esse acontecimento são: Dj Marlboro, KondZilla e Anitta.

O Dj Marlboro, desde os anos 90, levou o funk para outros países, tocando em eventos como o maior festival de música eletrônica da Espanha, o “Sónar”, já que seus hits são um mix de funk carioca, eletro, hip-hop e afins. No ano de 2004, o Dj fez apresentações em Londres, Estados Unidos, França, Inglaterra, Alemanha e entre outros países. Foi a partir dele que países do exterior tiveram contato com o funk.

Todo o trabalho do funk que era realizado no Brasil, nos anos 2000, não tinham produções qualificadas o suficiente, o que contribuía para a má divulgação do trabalho. Assim, quando o canal KondZilla surgiu no mercado de trabalho, as produções de clipes tiveram uma alta na melhora. Os primeiros clipes que chegaram ao exterior foi “Olha Explosão” do Mc Kevinho e logo em seguida “Deu Onda” do Mc G15. Assim, quanto mais sucesso os clipes fazem no YouTube, mais espaço elas conseguem no Brasil á fora.

Mas, foi em 2010 que uma grande artista surgiu. Larissa, mais conhecida com Anitta é a cara do funk pop atual. Anitta fez e faz diversas parcerias, entre elas J Balvin, Maluma, cantores que ajudaram a impulsionar, não só a cantora, como também o funk no exterior. Seu hit “Paradinha”, gravado em Nova Iorque, uma estratégia utilizada pela cantora, marcou o inicio de um grande movimento: A internacionalização do funk.

Anitta é uma figura que está sendo acompanhada por quase o mundo todo, lança moda, lança hits e lança, acima de tudo, a importância do funk para o Brasil.

Outras pessoas que tem grande influência nesse movimento, são os Dj. Muitos deles tocam na noite nos outros países e acabam criando uma remix, de uma ou mais, músicas brasileiras, geralmente com o funk, já que seu ritmo é contagiante e bom para dançar. Alguns exemplos desse caso são os Dj Alok, Dennis Dj e Dj Pereira.

 

 

A mulher no mundo do funk

 

As mulheres têm conquistado muitos lugares que antes eram proibidos para elas. Tudo se inicia com o direito do voto, depois um espaço, mesmo que pequeno, no mercado de trabalho, seu espaço enquanto mulher e cada dia mais, milhares de mulheres lutam, todos os dias, para que esse movimento só aumente.

Um local que muitas vezes é visto como “espaço masculino” é o mundo da música. Hoje as mulheres têm grande influência nesse universo, seja em composições, trabalho em bastidores e até mesmo como a própria cantora.

 Em cada estilo musical a mulher sofre, de uma forma diferente, a opressão. O rock e sertanejo, por exemplo, tem poucas figuras femininas, geralmente com no máximo 10 anos de carreira, como é o caso da Pitty, que lutou e ainda luta por seu espaço no mundo do rock nacional.

No mundo do funk há, além desse, mais um problema: objetificação da mulher. Como já dito antes, a figura feminina no funk é vista apenas como um objeto sexual, visível em diversas letras de músicas tais como “Open the tcheca” do Mc Lan; “Adestrador de cadela” do Mc MM; “Predador de perereca” do Mc Jhey; “Meiota” do Mc Kekel e “Novinha taradinha” do Mc WM e Louco de refri, ambas as músicas fizeram sucesso e foram top hits nas paradas musicais, mesmo que em uma versão mais “leve”, com seu ritmo é envolvente fazendo com que o público acabe não prestando atenção nas letras, cantam da boca para fora e mal se dão conta do que estão falando.

Embora tenha toda essa problemática, o funk é a maior e mais potente voz das periferias do Brasil e não seria diferente para as mulheres. Empoderador, faz com que elas tenham seu espaço para falar, com ritmo contagiante o lugar de fala é construído e toda a representatividade delas.

Foi nos anos 2000 que a primeira representante feminina do funk surgiu: Tati Quebra Barraco, carioca e negra, ela canta músicas que representam as vivências na favela, e ainda põe em discussão que mulher não precisa ser santa para ser respeitada. Seu hit mais famoso é “Boladona” que estourou nos bailes funks e induziu o público feminino nos eventos noturnos.

As mulheres vieram para esse mundo musical com a intenção de quebrar os paradigmas criado, dar voz as mulheres de periferia e negras e fazer crescer um movimento importante para nós mulheres.

Apesar do funk ter um saldo negativo há também seu lado positivo. A representatividade é de extrema importância, pois é com ela que se obtém respeito e visibilidade e é aí que se constrói as verdadeiras informações.

Nos dias atuais, as mulheres que entram no funk já têm a visão de empoderamento e não querem mais ver as músicas atuais, as colocam em posição inferior do homem, sendo sucesso. Baronesa é uma cantora de funk pop que está cerca de 1 ano nesse universo e fala um pouco da sua visão sobre a representatividade da mulher no funk. “É baixíssima, temos poucas mulheres que exercem o papel exato de nos representar, digo, as que entram no mundo do funk e falam que vão fazer isso e aquilo para realmente tentar agregar em algo para nós, são poucas, mas a figura feminina está cada vez mais inserida no mundo da música, não só no funk.”

 Existe alguns funks que estão marcados e são memórias recentes para diversas pessoas. Um clássico que não poderia deixar de ser citado é o “Agora eu sou solteira” da Valeska e entre outros sons que causaram muita polémica na sociedade conservadora.

E o funk é assim, desde seu inicio com dois lados, representando uns e causando polémicas para outros, mas não importa o que aconteça, o funk vai estar lá, nas casas noturnas, em churrascos de família, nas ruas e por todo o canto, cada vez mais crescendo e se espalhando.   

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